Junior Demaceno
Ontem tivemos o dia mais ensolarado e quente desde que o inverno entrou nas nossas vidas no ano passado: 14 graus para animar o povo do norte, tão acostumado ao frio, a chuva e umidade. Dentro da igreja do século XVI, cujo altar foi dedicado em 1123, as pedras centenárias, não haviam ainda adotado o calor da nova estacao. A nave central da igreja católica, emprestada a família da defunta, cujos ancestrais haviam se convertido ao protestantismo, estava lotada. Os Charitables, estavam la, com suas capas pretas e chapeus com abas longas, o mesmo uniforme que utilizavam na idade Media, quando enterravam os milhares de mortos da Peste, que matou metade da populacao europeia.
Dois hinos tradicionais, esperando que alguém conhecesse, alguns salmos, duas oracoes e uma mensagem baseada em João 14. Os hinos eu cantei sozinho, pois de todas as pessoas presentes, apenas uma prima da senhora morta, era protestante. No meio de tanta gente incrédula, a tal prima, era como uma ilha de feh perdida no meio do oceano do ateísmo e do secularismo. 'Posso ajuda-lo na leitura de um texto da Biblia, caro pastor', me disse a tal senhora que frequenta uma igreja Reformada na região onde nasceu o grande reformador Jean Calvin. No segundo hino, vendo que ninguem mesmo ia cantar, coloquei um pouco de Jazz, e mandei ver. Mais tarde, caminhando pelas ruas da cidade, seguindo o féretro ate o cemitério, ouvi uma pessoa dizer: gente, o pastor canta muito bem. Fiquei pensando que de qualquer forma, eu fui o único a cantar.
Madame Dupont que faleceu na semana passada, havia expressado nas suas ultimas horas de vida que a reunião fúnebre fosse feita por um pastor; mesmo que a mesma fosse numa igreja católica. Na segunda-feira fui visitar a família da falecida do outro lado do condado afim de preparar a cerimonia. Nunca havia encontra membro algum da dita família, soh contato pelo telefone. O tempo estava lindo! As árvores comecando a voltar a vida, flores a beira da estrada e tratores preparando a terra para receber a semente, eram sinais de que a vida esta de volta ao nosso dia a dia. O vilarejo de Beaumeris Saint Martin, onde a senhora havia passado os últimos anos de sua vida, fica num vale, entre Hesdin e Montreuil. Hesdin, onde no século XII, Guilherme o Conquistador acampou pela ultima vez antes de atravessar o Canal da Mancha e invadir a Inglaterra. O corpo da senhora jazia num dos quartos da casa desde a semana passada. Deitada na cama, morta dos pes a cabeça. Calada, esperando a dita cerimonia protestante. Um cachorro entrou no quarto, e eu sem saber o que dizer, contemplando aquele corpo frio, perguntei simplesmente: O cao da defunta? Como numa peca de teatro, os filhos e netos, ali contemplando o corpo inerte, olham para mim, olhares sombrios, vazios e sem esperança. Silencio. 'Os protestantes nao oram pelo defunto, mas eu posso fazer uma oração por voces', disse eu depois de um silencio funerário. Li o salmo 91, orei e disse: aurevoir. Na volta para Bethune, atravessando vilarejos e cidadezinhas, eu coloquei um CD de louvor e bem alto, sozinho no meu carro, cantei ao Deus Vivo que Reina na minha vida, para afastar a impressão sombria de morte que pairava na tarde primaveril.
Junior, le bresilien en Franc |
Peter Wilks, 09/04/2009 |
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